ISSN 2965-7849 On-line
ISSN 1678-5304 Impresso (até 2023)
v. 1 n. 51 (2026): Cadernos para o Professor
Caro Leitor,
A intensificação da exploração da natureza tem imposto novos desafios às políticas públicas, às cidades e, de modo particular, às instituições educativas. Em um contexto marcado pela intensificação dos eventos climáticos extremos e pelo aprofundamento das desigualdades socioespaciais, a educação ambiental crítica assume um papel fundamental na compreensão das relações entre sociedade, natureza e território por estudantes e profissionais da educação.
Essa perspectiva crítica distancia-se das abordagens conservacionistas ou comportamentais, para assumir uma perspectiva capaz de analisar os processos econômicos, políticos e culturais que atravessam a relação entre sociedade e natureza. A expansão do capital sobre os territórios, a mercantilização da terra, a fragmentação das paisagens e a subordinação dos bens comuns às lógicas econômicas produzem não apenas alterações ambientais, mas também processos de desarticulação territorial, de apagamento das memórias coletivas e de modos de vida.
Nesse contexto, a escola pública ocupa posição estratégica para articular e mediar os conhecimentos científicos, saberes e experiências territoriais produzidos pelas comunidades do entorno. Assim, a educação ambiental crítica pode contribuir para a formação de sujeitos capazes de interpretar criticamente as questões socioambientais contemporâneas e de participar da construção de alternativas comprometidas com a justiça climática e a sustentabilidade da vida. Não se trata apenas de ensinar conteúdos sobre meio ambiente, mas de promover processos educativos que permitam compreender as múltiplas determinações do modo de produção capitalista que produzem os riscos, as vulnerabilidades e as desigualdades ambientais.
É nesse horizonte que a 51ª edição da Revista Cadernos para o Professor se dedica à temática “Entre natureza, educação e sociedade: a escola como ambiente de atravessamentos”, compreendendo a pertinência dessa discussão ainda mais evidente quando considerada a experiência vivenciada pelo município de Juiz de Fora em fevereiro de 2026.
A intensa precipitação pluviométrica que atingiu o município, culminou na decretação de estado de calamidade pública e produziu impactos e riscos ambientais significativos sobre a infraestrutura urbana, as comunidades (a memória, a moradia, as relações de vizinhança, por exemplo) e o funcionamento dos serviços públicos, entre eles a educação. As 102 unidades escolares da Rede Municipal de Ensino ficaram 9 dias sem possibilidade de retornarem às atividades pedagógicas. Desse quantitativo total, 10 escolas foram diretamente atingidas pelas chuvas, evidenciando que essas instituições também se encontram inseridas em áreas de risco ambiental, como reflexo do modo como o espaço urbano é historicamente construído/constituído: de forma desigual e excludente.
Todavia, mais do que locais atingidos pela emergência climática, a escola pública reafirmou sua função enquanto equipamento social essencial para a população e no dia 23 de fevereiro, sob coordenação da Secretaria de Educação, foram abertas 12 unidades escolares1 para acolher as famílias desabrigadas. Ainda que os profissionais da educação da rede municipal que participaram desse processo de acolhimento não possuíssem formação específica para a gestão de situações de calamidade pública, foi através do conhecimento territorial e da capacidade organizativa de diretores, vice-diretores, técnicos, supervisores e gerentes da Secretaria de Educação, por exemplo, que possibilitou uma resposta rápida às demandas dos moradores dos bairros mais atingidos pelo contexto de calamidade.
Essa experiência evidencia uma dimensão frequentemente invisibilizada da escola pública: sua centralidade como instituição de referência para as comunidades e como espaço privilegiado de articulação das políticas socioambientais. Em momentos de crise, a escola, para além de ser um espaço destinado aos processos de ensino e aprendizagem, constitui-se como lugar de acolhimento, cuidado, escuta e reconstrução. Trata-se de uma função social historicamente construída, mas que ganha novos contornos diante da crescente recorrência dos eventos climáticos extremos.
Nesse processo de gestão da crise ambiental no município, destaca-se também o protagonismo feminino na linha de frente no auxílio à população desabrigada. Além de serem a maioria entre os profissionais que compõem a Rede Municipal de Ensino, como diretoras, vice-diretoras, coordenadoras pedagógicas, professoras, cozinheiras, auxiliares de serviços gerais e demais trabalhadoras, as mulheres estiveram à frente da organização dos abrigos provisórios. Mais do que uma constatação quantitativa, esse protagonismo revela como o trabalho do cuidado, frequentemente invisibilizado, constitui como um elemento estruturante das respostas institucionais em contextos de emergência, reafirmando o papel das mulheres na execução das políticas públicas.
É com esse compromisso ambiental e crítico que esta edição da Revista Cadernos para o Professor convida seus leitores e leitoras à reflexão. Mais do que reunir experiências e produções teórico-metodológicas, esta atual publicação propõe um diálogo com os desafios vivenciados pela Rede Municipal de Ensino de Juiz de Fora. Desejamos a todas e todos uma boa leitura e reflexão.


