v. 1 n. 51 (2026): Cadernos para o Professor

Caro Leitor,

A intensificação da exploração da natureza tem imposto novos desafios às políticas públicas, às cidades e, de modo particular, às instituições educativas. Em um contexto marcado pela intensificação dos eventos climáticos extremos e pelo aprofundamento das desigualdades socioespaciais, a educação ambiental crítica assume um papel fundamental na compreensão das relações entre sociedade, natureza e território por estudantes e profissionais da educação.

Essa perspectiva crítica distancia-se das abordagens conservacionistas ou comportamentais, para assumir uma perspectiva capaz de analisar os processos econômicos, políticos e culturais que atravessam a relação entre sociedade e natureza. A expansão do capital sobre os territórios, a mercantilização da terra, a fragmentação das paisagens e a subordinação dos bens comuns às lógicas econômicas produzem não apenas alterações ambientais, mas também processos de desarticulação territorial, de apagamento das memórias coletivas e de modos de vida.

Nesse contexto, a escola pública ocupa posição estratégica para articular e mediar os conhecimentos científicos, saberes e experiências territoriais produzidos pelas comunidades do entorno. Assim, a educação ambiental crítica pode contribuir para a formação de sujeitos capazes de interpretar criticamente as questões socioambientais contemporâneas e de participar da construção de alternativas comprometidas com a justiça climática e a sustentabilidade da vida. Não se trata apenas de ensinar conteúdos sobre meio ambiente, mas de promover processos educativos que permitam compreender as múltiplas determinações do modo de produção capitalista que produzem os riscos, as vulnerabilidades e as desigualdades ambientais.

É nesse horizonte que a 51ª edição da Revista Cadernos para o Professor se dedica à temática “Entre natureza, educação e sociedade: a escola como ambiente de atravessamentos”, compreendendo a pertinência dessa discussão ainda mais evidente quando considerada a experiência vivenciada pelo município de Juiz de Fora em fevereiro de 2026.

A intensa precipitação pluviométrica que atingiu o município, culminou na decretação de estado de calamidade pública e produziu impactos e riscos ambientais significativos sobre a infraestrutura urbana, as comunidades (a memória, a moradia, as relações de vizinhança, por exemplo) e o funcionamento dos serviços públicos, entre eles a educação. As 102 unidades escolares da Rede Municipal de Ensino ficaram 9 dias sem possibilidade de retornarem às atividades pedagógicas. Desse quantitativo total, 10 escolas foram diretamente atingidas pelas chuvas, evidenciando que essas instituições também se encontram inseridas em áreas de risco ambiental, como reflexo do modo como o espaço urbano é historicamente construído/constituído: de forma desigual e excludente.

Todavia, mais do que locais atingidos pela emergência climática, a escola pública reafirmou sua função enquanto equipamento social essencial para a população e no dia 23 de fevereiro, sob coordenação da Secretaria de Educação, foram abertas 12 unidades escolares1 para acolher as famílias desabrigadas. Ainda que os profissionais da educação da rede municipal que participaram desse processo de acolhimento não possuíssem formação específica para a gestão de situações de calamidade pública, foi através do conhecimento territorial e da capacidade organizativa de diretores, vice-diretores, técnicos, supervisores e gerentes da Secretaria de Educação, por exemplo, que possibilitou uma resposta rápida às demandas dos moradores dos bairros mais atingidos pelo contexto de calamidade.

Essa experiência evidencia uma dimensão frequentemente invisibilizada da escola pública: sua centralidade como instituição de referência para as comunidades e como espaço privilegiado de articulação das políticas socioambientais. Em momentos de crise, a escola, para além de ser um espaço destinado aos processos de ensino e aprendizagem, constitui-se como lugar de acolhimento, cuidado, escuta e reconstrução. Trata-se de uma função social historicamente construída, mas que ganha novos contornos diante da crescente recorrência dos eventos climáticos extremos.

Nesse processo de gestão da crise ambiental no município, destaca-se também o protagonismo feminino na linha de frente no auxílio à população desabrigada. Além de serem a maioria entre os profissionais que compõem a Rede Municipal de Ensino, como diretoras, vice-diretoras, coordenadoras pedagógicas, professoras, cozinheiras, auxiliares de serviços gerais e demais trabalhadoras, as mulheres estiveram à frente da organização dos abrigos provisórios. Mais do que uma constatação quantitativa, esse protagonismo revela como o trabalho do cuidado, frequentemente invisibilizado, constitui como um elemento estruturante das respostas institucionais em contextos de emergência, reafirmando o papel das mulheres na execução das políticas públicas.

É com esse compromisso ambiental e crítico que esta edição da Revista Cadernos para o Professor convida seus leitores e leitoras à reflexão. Mais do que reunir experiências e produções teórico-metodológicas, esta atual publicação propõe um diálogo com os desafios vivenciados pela Rede Municipal de Ensino de Juiz de Fora. Desejamos a todas e todos uma boa leitura e reflexão.

Publicado: 01-07-2026

SEÇÃO TEMÁTICA - ENTRE NATUREZA, EDUCAÇÃO E SOCIEDADE: a escola como ambiente de atravessamentos

  • O RISCO NÃO É NATURAL: DESIGUALDADE, CALAMIDADE E A ESCOLA COMO ESPAÇO DE (RE)EXISTÊNCIAS

    LEONARDO BIAGE DE ANDRADE, THAIANE CAMPOS MOURA (Autor)
    18
    DOI: https://doi.org/10.62556/wkh29g91
  • CRISE DO CAPITAL, MEMÓRIA E EDUCAÇÃO: reflexões e desafios após o desastre socioambiental em Juiz de Fora-MG

    Guilherme Goretti Rodrigues, Pilar Silveira Mattos, Fabiana Rodrigues de Almeida (Autor)
    17
    DOI: https://doi.org/10.62556/jbx18v78
  • QUE HISTÓRIA ENSINAR EM MEIO A CATÁSTROFE? Antropoceno e Ensino de História

    RICARDO VICENTE DA CUNHA JÚNIOR, JOÃO VICTOR DE OLIVEIRA CALEGARI (Autor)
    19
    DOI: https://doi.org/10.62556/p1v67705
  • EDUCAÇÃO CLIMÁTICA ALGORÍTMICA: disputas de narrativas ambientais nas redes digitais e os desafios da escola

    Márcio Silveira Nascimento (Autor)
    17
    DOI: https://doi.org/10.62556/4n39zh77
  • PRÁTICAS DOCENTES EM MATEMÁTICA COM TURMA HETEROGÊNEA: desafios e aprendizagens em contexto pós-desastre.

    Andressa Talma, Dr. Eduardo Barrere (Autor)
    3
    DOI: https://doi.org/10.62556/v0prsb74
  • PARA ALÉM DO COTIDIANO: reflexões sobre a gestão escolar em situações de calamidade – o caso de uma escola no sul do Brasil

    Wotroba, Gisele Rodrigues Soares (Autor)
    10
    DOI: https://doi.org/10.62556/astdb860
  • “ADIANDO O FIM DO MUNDO NA ESCOLA”: um relato interdisciplinar sobre religião, ecologia e meio ambiente.

    William Assis da Silva, Agatha Oliveira, André Cordovil, Vagner Alves (Autor)
    7
    DOI: https://doi.org/10.62556/v8j1ck08
  • EMERGÊNCIA CLIMÁTICA E EDUCAÇÃO: a interferência de desastres ambientais na trajetória escolar de estudantes em regiões periféricas

    Suzane Domingos, Danieli do Nascimento, Sueli de Melo, Nadia Totti (Autor)
    21
    DOI: https://doi.org/10.62556/nr4tqf42
  • “EDUCAÇÃO DAS MASSAS”: ações dos movimentos sociais na construção da educação ambiental crítica

    MAHALIA GOMES DE CARVALHO AQUINO (Autor)
    16
    DOI: https://doi.org/10.62556/sht3t207

ARTIGOS

  • OS PROFESSORES ESTÃO PREPARADOS PARA EMERGÊNCIAS? Avaliação do conhecimento em primeiros socorros nas creches municipais de Patos-PB

    Nyedja Felipe de Oliveira, Thaynara de Oliveira Cavalcante, Clotildes Alvino Leite Guedes, Maria Clerya Alvino Leite (Autor)
    22
    DOI: https://doi.org/10.62556/gw0cpy06
  • PLATAFORMIZAÇÃO EDUCACIONAL E SEUS CAMINHOS NA REDE MUNICIPAL DE ENSINO DE JUIZ DE FORA

    Maria Olinda Venancio, Berenice Campos (Autor)
    20
    DOI: https://doi.org/10.62556/dvfjje82
  • EDUCAÇÃO, LINGUAGEM E EXPERIÊNCIA: entre o dizer e o indizível na (trans)formação humana

    Jungley de Oliveira Torres Neto (Autor)
    13
    DOI: https://doi.org/10.62556/73hmnd74
  • A CRIANÇA COMO OBRA DE ARTE TOTAL: Integração entre a Estética Wagneriana e o Meio Ambiente na Educação Infantil

    lucas souza miranda (Autor)
    13
    DOI: https://doi.org/10.62556/h8hqwx02
  • ALFABETIZAÇÃO EM FOCO: ajustes pedagógicos e o programa criança alfabetizada no contexto da implementação da escola em tempo integral no bairro Parque das Águas – Juiz de Fora, MG

    MARCELA FRANCA E GOMES SILVA GOMES SILVA (Autor)
    10
    DOI: https://doi.org/10.62556/6kzyp314
  • SENTIDOS DA NATUREZA NO CONTO FOLCLÓRICO DO BOITATÁ

    Arthur Ponté Rinco, Dr. Guilherme Trópia (Autor)
    16
    DOI: https://doi.org/10.62556/nmv9pg32
  • CÍCULO DE ENCANTARIAS NO ENSINO DE HISTÓRIA: por entre lendas amazônicas o engerado

    Sabrina Munck do Nascimento (Autor)
    12
    DOI: https://doi.org/10.62556/rhdq6v38
  • LITERATURA INFANTIL E LETRAMENTO RACIAL: caminhos para a afirmação identitária na sala de aula

    Kamilla Coelho (Autor)
    15
    DOI: https://doi.org/10.62556/9cb53q42
  • EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS E INCLUSÃO: desafios à formação de estudantes com deficiência intelectual

    Anguelica De Battisti, Jungley Torres (Autor)
    16
    DOI: https://doi.org/10.62556/dsbbbc65
  • BRAÇO PESCADOR ROBÓTICO COMO ESTRATÉGIA PEDAGÓGICA PARA TRABALHAR MOTRICIDADE E ROBÓTICA COM CRIANÇAS

    Gilberto Colvero de Oliveira (Autor)
    17
    DOI: https://doi.org/10.62556/bx94xm31
  • ALÉM DA FÓRMULA DE BHASKARA: abordagens alternativas para equações do segundo grau

    DANIELLE MARQUES RAMOS (Autor)
    22
    DOI: https://doi.org/10.62556/wv8h5d43

RELATOS

  • ENTRE A FORMAÇÃO E A PRÁTICA DOCENTE: um relato de experiência em Educação Física sobre a escola como espaço de acolhimento

    Dra. Cintia Chung Marques Corrêa, Ms. Marcio de Almeida Wermelinger (Autor)
    18
    DOI: https://doi.org/10.62556/ewpfhm42
  • ENTRE NATUREZA, EDUCAÇÃO E SOCIEDADE: a horta escolar como espaço de integração entre ciências e pensamento computacional desplugado

    Layze Fernanda dos Santos Nicácio (Autor)
    13
    DOI: https://doi.org/10.62556/emhy1e10
  • O USO DO ORIGAMI COMO RECURSO DIDÁTICO NO ENSINO DE MATEMÁTICA A PARTIR DE UM CONTO INDÍGENA

    Weslley Gois de Andrade (Autor)
    9
    DOI: https://doi.org/10.62556/3nwwf124
  • ENTRE A ORALIDADE E A CRIAÇÃO: experiências interculturais com a cultura indígena no Ensino Fundamental

    Michelle Lynn Marques Miguel (Autor)
    9
    DOI: https://doi.org/10.62556/9k37p412
  • LEEI APROFUNDAMENTO E A FORMAÇÃO DE PROFESSORES NO CONTEXTO ESCOLAR: possibilidades e desafios

    Emilia Merlini (Autor)
    9
    DOI: https://doi.org/10.62556/1xabp981
  • O MUSEU MARIANO PROCÓPIO COMO ESPAÇO DE EXTENSÃO EM AULAS DE HISTÓRIA DO ENSINO FUNDAMENTAL

    Adebiano Pereira (Autor)
    8
    DOI: https://doi.org/10.62556/qb8r4078
  • EXPERIÊNCIAS CULTURAIS E A CULTURA DO ESCRITO: diálogo importante na Educação Infantil

    Marília Dejanira Berberick de Almeida, Vanessa Titonelli Alvim (Autor)
    8
    DOI: https://doi.org/10.62556/xcrdv340
  • “OS ANIMAIS QUE GOSTAM DE COMER”: a releitura de obras literárias como prática de leitura e escrita na Educação Infantil

    Elisangela Braga Rufato, MICHELLE DUARTE RIOS CARDOSO (Autor)
    8
    DOI: https://doi.org/10.62556/pb0yvk89
  • RELATO DE EXPERIÊNCIA: o uso do gênero textual notícia e reportagem como prática interdisciplinar no 4º ano do Ensino Fundamental

    Josely Ferreira Ribeiro, Luiza Emanuele Santos (Autor)
    11
    DOI: https://doi.org/10.62556/nfwhz392